Legado social na mineração: da narrativa do investimento à resiliência do território

Legado social na mineração: da narrativa do investimento à resiliência do território
Legado social na mineração: da narrativa do investimento à resiliência do território - Imagem IA

Por Rodrigo Amaral, executivo de comunicação corporativa, com atuação em infraestrutura e sustentabilidade na América Latina

A Conferência de Regiões e Cidades Mineradoras da OCDE, em Antofagasta, no Chile, apresentou 12 diretrizes para o bem-estar e a resiliência de regiões mineradoras. A principal mudança está no foco: a avaliação deixa de olhar apenas para a mina e passa a considerar o território.

A avaliação tradicional considera produção, empregos e arrecadação. Mas a região estará melhor quando a mina fechar?

A prosperidade durante a operação pode conviver com economias frágeis e dependentes da atividade. As diretrizes propõem medir o benefício pela durabilidade do que fica: economia diversificada, serviços em funcionamento, participação e qualidade ambiental.

Quando trabalhei em mineradoras, aprendi sobre relacionamento com comunidades. O investimento social incluía obras, patrocínios e melhorias como postos de saúde, estradas e escolas. Era um trabalho sério, mas a régua costumava ser a entrega. Pouco se perguntava se aquilo continuaria funcionando anos depois.

As diretrizes não desqualificam esse repertório. O convite é completá-lo com uma pergunta: o que fica?

A comunicação corporativa tem papel importante. A narrativa do setor destacou investimentos, obras e tributos. São dados relevantes, mas medem esforço, não resultado. Quando o benefício não sobrevive à operação, o ativo de reputação pode virar passivo.

Antes de transformar um programa em mensagem, é preciso perguntar: ele responde a uma prioridade do território? A população participa das decisões? Há indicadores de resultado, além dos números de entregas? E esse benefício continuará existindo depois do fechamento?

A comunicação deixa de apenas divulgar o que foi feito e passa a cobrar coerência entre compromissos e práticas. Só se sustenta publicamente o que tem responsáveis, prazos, indicadores e prestação de contas. Confiança nasce da possibilidade de verificar o que mudou.

A América Latina reúne projetos estratégicos para a transição energética e territórios que reivindicam participação nos benefícios. Em Antofagasta, governos, comunidades e empresas discutiram como transformar minerais críticos em desenvolvimento regional.

Empresas precisam alinhar discurso e medição, com critérios de resultado e prestação de contas que ultrapassem a operação. Para comunicadores, a credibilidade dependerá da possibilidade de verificar o que relatamos.

Uma mina, um dia, fecha. Legado social não é o que a empresa declara nessa hora, mas o que a região consegue sustentar depois. Medir essa diferença e comunicá-la com honestidade é o desafio colocado pelas novas diretrizes.

Laura Carvalho - LatAm Intersect